Voltar origens como – Durante o AI Brasil Experience 2025, o maior encontro de inteligência artificial da América Latina, Leonardo Santos, fundador e chairman da Semantix e cofundador da AI Brasil, participou de um episódio especial do podcast Fala AI Semantix. Na conversa, gravada nos estúdios montados dentro do evento, Leonardo compartilhou a trajetória de quinze anos da companhia e refletiu sobre o papel da inovação brasileira num cenário dominado por gigantes globais.
Leonardo Santos fundou a Semantix em 2010, movido por uma convicção simples e subversiva: o Brasil pode produzir tecnologia de ponta, registrar propriedade intelectual e competir globalmente sem abdicar da própria identidade. O gesto inaugural não foi técnico, foi simbólico — erguer a bandeira do país no território mais improvável: o da inovação.
O início foi artesanal. Um jovem programador da zona norte de São Paulo, fascinado por dados e inquieto com a dependência tecnológica nacional, decide transformar aprendizado em sistema e sistema em produto. Da sala de aula no Senac ao laboratório de open source no Vale do Silício, Leonardo percebeu que a colaboração é força multiplicada: comunidades abertas superam corporações fechadas. Ali se consolidou a tese que sustentaria a Semantix — inteligência coletiva como ativo estratégico.
Entre 2013 e 2016, a visão saiu do papel. A empresa implementou projetos em bancos como Itaú e Bradesco e provou que arquiteturas de dados abertas podiam coexistir com governança corporativa. O resultado não foi apenas técnico: foi cultural. Um país acostumado a consumir inovação começou a enxergar-se como produtor. A Semantix tornou-se a primeira startup investida do Bradesco e iniciou sua internacionalização para México e Colômbia, levando consigo a convicção de que dados são o novo petróleo apenas quando refinados em inteligência.
A maturidade veio com o crescimento — e com as cicatrizes. O IPO em 2022, a exposição ao mercado norte-americano, a pressão por margens e velocidade ensinaram o limite entre expansão e essência. Em 2023, Leonardo retomou o controle. Recomprou o free float, desfez excessos e reimplantou o founder mode: menos exuberância financeira, mais coerência estratégica. Voltar às origens deixou de ser nostalgia e virou método. Sustentabilidade, cultura e propósito voltaram ao centro da mesa.
Essa reorientação não é retração; é preparação. A meta de R$ 1 bilhão até 2030 não expressa ganância, mas amplitude de sonho. Sonhar grande é ato de gestão — porque mobiliza equipes, parceiros e o ecossistema. A companhia volta-se agora para o desenvolvimento de tecnologias proprietárias e para a integração com parceiros globais, mantendo a posição que a diferencia: ser agnóstica em infraestrutura e profundamente brasileira em propósito. O investimento na academia, materializado no CEIA-UFG, sinaliza o retorno à origem da pesquisa como motor de soberania.
Leonardo fala da inteligência artificial com a serenidade de quem já viu a euforia se confundir com bolha. “A expectativa é o tamanho da frustração”, diz, lembrando que tecnologia é meio, não fim. O futuro da IA será decidido menos por quem gerar hype e mais por quem resolver problemas reais. Para ele, o papel do CIO e dos líderes de dados é reconectar tecnologia e negócio, devolver propósito às métricas e ética aos algoritmos. É nessa fronteira — entre eficiência e responsabilidade — que a Semantix se posiciona como construtora de confiança.
Há, em sua fala, um subtexto que ultrapassa o plano corporativo. Quando Leonardo afirma que prefere construir uma empresa brasileira, mesmo diante do capital estrangeiro, ele está falando de soberania em código-fonte. O Brasil, diz ele, tem vocação criativa e técnica para gerar valor, mas precisa acreditar em si mesmo. “Quem não sonha está morto e não sabe.”
Essa é a tônica de sua jornada: sonhar como ato de gestão, resistir como disciplina e educar como legado. A história de Leonardo Santos é, antes de tudo, a de um país aprendendo a programar o próprio destino.